Sobre os Anjos de Deus


ADICIONANDO-SE A PALAVRA “anjos” a um buscador da Internet, é grande a quantidade de informações que se obtém: são muitas páginas contaminadas pela doutrina new age. Ainda mais curiosa é a busca por imagens de anjos: encontramos desde os tradicionais bebezinhos gorduchos até garotinhos meio afeminados com asinhas coloridas. Ultimamente, têm surgido até algumas figuras semelhantes a fisiculturistas anabolizados com auréolas e asas.

Muitos artigos sobre os anjos estão, sem dúvida, deformados por uma certa cultura esotérica pseudomística. São muitas tolices, é possível até encontrar um anjo específico para cada cor, para cada dia da semana, etc.

Entendamos, então, primeiro, o que os anjos de Deus não são: não são “reencarnações” de pessoas falecidas; não são “sentimentos” de amor ou da Presença do Criador; não são como “gnomos” ou “duendes”; não são uma espécie de “energia”; não são como um tipo de fumaça branca.

“A humanidade” diz P. B. Celestino, “no seu conjunto, parece obedecer a uma espécie de ‘lei do bêbado’: depois de uma queda para a direita, procura compensá-la inclinando-se para a esquerda, e acaba caindo nessa direção. Assim, às épocas de racionalismo exacerbado e míope, seguem-se outras em que proliferam as mais tresloucadas fantasias e crendices, e a doutrina sobre os anjos está entre as que mais facilmente se prestam a essas deformações. O nosso tempo inclui-se entre as segundas, a julgar pelo número de ‘caricaturas’ deformadas desses seres não-humanos, ― sob a forma de duendes, gnomos, espíritos ‘desencarnados’, deidades e extraterrestres, ― que se misturam inextricavelmente nas estantes das livrarias e lojas de bibelôs, bem como nas cabeças de alguns…”[1]. Muito bem dito.

O Calendário Litúrgico Católico celebra duas festas angélicas, uma no dia 29 de setembro – a Festa dos Três Arcanjos, S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael –, e outra a 2 de outubro – a Festa dos Anjos da Guarda. Mas, afinal, quem são os anjos?

Talvez o Concílio da Igreja que mais se dedicou a explicar a doutrina sobre os anjos foi o de Latrão IV, no ano 1215. Neste se afirmou, num contexto de profissão da fé, que os anjos foram criados por Deus desde o inicio do tempo. No caso dos demônios, o Concilio diz que foram anjos criados bons, que se fizeram maus pelo uso de seu livre arbítrio. Evidentemente, houve pronunciamentos magisteriais sobre os anjos antes desta data, por exemplo, o do Papa Zacarias, no ano 745, que rejeitou os vários nomes dos anjos, ficando somente com os de Miguel, Gabriel e Rafael, já que são os únicos mencionados pela Sagrada Escritura. O Concilio de Aix-la-Chapelle, no ano 789, fez o mesmo.


O testemunho das Sagradas Escrituras


A palavra anjo vem do grego angelos, que serviu para traduzir a palavra hebraica mal’ak, que, de maneira geral, significa “mensageiro”. O que nos diz a Bíblia Sagrada sobre os anjos? Não muito, mas o bastante. Em resumo:

• Os anjos são filhos de Deus (cf. Jó 1,6; 2,1);

• São protetores dos homens (cf. Sl 90,11);

• Vivem nos Céus (cf. Mt 28,2);

• São de natureza espiritual (cf. 1 Re 22,19-21; Dn 3,86; Hb 1,14);

• Há anjos bons e anjos maus (cf. Zc 3,1);

• Sabemos que existem os Serafins (cf. Is 6), Querubins (cf. Gn 3,24; Ex 25,22; Ez 10,1-20), TronosDominaçõesPotestades e Principados (cf. Cl 1,16), Virtudes (cf. Ef 1,21), Arcanjos (cf. 1 Ts 4,15-16; Judas 9) e os anjos que cuidam dos indivíduos (cf. Tb 5; Sl 90,11; Dn 3,49s; Mt 18,10).

Os Evangelhos dizem que os anjos  contemplam a Face de Deus (Mt 22,30; 18,10) e que se alegram pela conversão dos homens (Lc 15,10). Dizem ainda que eles levaram Lázaro ao seio de Abraão (Lc 16,22).

Em relação aos três Arcanjos: 

• Gabriel, seu nome significa “Deus é Força”, aparece em Dn 8,16; 9,21; Lc 1,19.26; 

• Miguel, seu nome significa “Quem (é ou pode ser) como Deus?”, aparece em Dn 10,13.22; 12,1; Jud 9; Ap 12,7. São Miguel é o Padroeiro de toda a Igreja;

• Rafael, seu nome significa “Deus Cura”, aparece em Tb 3,25.


A hierarquia angélica e as relações com os seres humanos


Segundo S. Tomás de Aquino, a Luz Divina é comunicada aos Anjos de maneira hierárquica, graduada e ordenada, da primeira Hierarquia até a última. A palavra “hierarquia”, neste caso, significa Principado Sagrado; a palavra “Principado” compreende duas realidades: o próprio Príncipe e a multidão ordenada sob ele. O Principado Sagrado, entendido no seu significado pleno e perfeito, designa toda a multidão das criaturas racionais e chamadas a participar das coisas santas sob o Governo Único de Deus, Príncipe supremo e Rei soberano de toda esta multidão. Não há uma classificação total e e uniformemente definida na Igreja sobre os Nove Coros dos Anjos. A de Dionísio Aeropagita e a do Papa São Gregório permanecem a referência.

A distinção mais divulgada de uma hierarquia entre os anjos aparece na obra De Coelesti Hierarquia (Sobre a Hierarquia Celeste), atribuído a Dionísio, o Areopagita, datada entre os séculos IV e V. Nesta, os anjos são “classificados” em três Ordens, cada uma formada por três Coros, num total de nove Coros Angélicos: Serafins, Querubins e Tronos fazem parte da primeira hierarquia dos anjos; Dominações, Virtudes e Potestades formam a segunda hierarquia; os Principados, os Arcanjos e os Anjos (como os de guarda) estariam na terceira. Todos esses anjos têm, como resume o teólogo francês J. Daniélou, duas funções: louvar a Trindade Santíssima e guardar e defender tudo o que é de Deus.

O Catecismo da Igreja Católica diz que os anjos são criaturas pessoais, ou seja, dotadas de inteligência e vontade; são imortais, porque puramente espirituais, e superam em perfeição as criaturas visíveis (CIC §330). A perfeição dos anjos não permite, no entanto, que eles penetrem nossas consciências; temos que manifestar-lhes as nossas necessidades, mas basta falar com eles mentalmente, e nos entenderão. O fato de os anjos serem pessoas nos faz ver que são capazes de relações de amizade e de fraternidade com pessoas humanas. Os santos anjos são nossos amigos. Seria bom se cultivássemos essa amizade frequentemente, conversando com eles, pedindo a sua proteção e agradecendo seus favores. Nessas angélicas relações amistosas, o nosso anjo da guarda ocupa o primeiro posto: é o anjo que mais deveria ser tratado por nós.

A Primeira Hierarquia: Serafins – Querubins – Tronos

Representa Deus nas suas Perfeições mais íntimas: Amor ardente, Luz viva, Santidade inalterável.

A Segunda Hierarquia: Dominações – Virtudes – Potestades

Representa Deus na sua Soberania sobre todas as criaturas: Poder sem limites, Força irresistível, Justiça imutável.

A Terceira Hierarquia: Principados – Arcanjos – Anjos

Representa Deus nas suas ações: sábio Governo, sublimes Revelações, constantes testemunhos de Bondade.


A devoção aos anjos não contraria a centralidade de Cristo


Todos os anjos estão ao serviço de Cristo, e é uma honra para eles servir a Jesus e a todos os seres humanos por amor ao Deus Uno e Trino. O Catecismo da Igreja destaca esse serviço humilde e eficaz a Cristo e a toda a Igreja (Cat. 333-335).

Os santos foram muito devotos dos anjos. São Josemaría Escrivá, por exemplo, deixava que o seu anjo da guarda contasse o número de orações e mortificações que ele ia fazendo, tinha-o presente nos trabalhos apostólicos que realizava, chamava-o “Relojoeirinho” (porque era muito pontual em despertar-lhe e até consertou-lhe um relógio numa ocasião!), dedicava as terças-feiras a tratá-lo mais intensamente, rezava ao anjo da guarda de alguém com quem queria conversar ou escrever-lhe uma carta; viu o Opus Dei no dia 2 de outubro de 1928, Festa dos Anjos da Guarda; confiou os diversos trabalhos dessa nova fundação a cada um dos arcanjos. O livro “Caminho”, um verdadeiro clássico moderno da espiritualidade cristã católica, indica nove pontos seguidos à devoção aos anjos. Como São Josemaría, poderíamos elencar vários outros santos cuja devoção aos anjos nos anima a ser mais amigos desses celestes espíritos.

Os anjos estão presentes na Liturgia da Igreja, muito especialmente quando a Santa Missa é celebrada. Os textos litúrgicos fazem referências a esses celestes adoradores de Deus. O “Glória a Deus nas alturas” foi uma oração entoada por eles (cfr Lc 2,13-14). As Orações Eucarísticas, na sua primeira parte (prefácios), terminam “com os anjos e os arcanjos e com todos os coros celestiais” cantando o hino da glória de Deus que é o “Santo, Santo, Santo”, Hino dos Serafins (cf. Is 6).

Na Oração Eucarística I ou Cânon Romano, a Oferenda é levada ao Deus Todo-Poderoso “per manus sancti angeli”, ou seja, pelas mãos do santo anjo. São Beda dizia que “da mesma maneira que vemos como os anjos rodeavam o Corpo do Senhor no sepulcro, devemos crer que estão fazendo a corte a Jesus na Consagração”.

Enfim, toda a vida do novo Povo de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, recebe a proteção dos anjos. Nós, membros da Igreja, podemos e devemos intensificar a nossa devoção a esses celestiais guardiões da nossa fé, esperança e caridade, do nosso trabalho pela causa de Deus e do nosso caminho rumo ao Céu. Sejamos gratos aos nossos anjos da guarda e, sobretudo, agradeçamos ao Senhor por esses angélicos companheiros.


Referências bíblicas


• Gênesis 3,24: Querubins;

• Isaías 5,2: Serafins;

• Ezequiel 10,3: Querubins e Tronos;

• Daniel: Miríades Angélicas, Gabriel e Miguel;

• Tobias: Rafael;

• 2 Macabeus: Exércitos Celestes, Miguel;

• 1 Tessalonicenses 4,16: Arcanjo;

• Romanos 8,38: Anjos, Principados, Potestades;

• 1 Coríntios 15,24: Principados, Dominações, Potestades;

• Efésios 1,21: Principados, Potestades, Virtudes, Senhorias ou Dominações;

• Efésios 3,10: Dominações e Potestades celestes;

• Efésios 6,12: Principados e Potestades;

• Colossenses 1,15: Tronos, Dominações, Principados e Potestades;

• Colossenses 2,10: Principados e Potestades;

• Colossenses 2,15: Principados e Potestades;

• 1 Pedro 3,22: Anjos, Principados e Potestades;

• Judas 9: Arcanjo Miguel;

• 2 Pedro 10,11: as Glórias;

• Hebreus 12,22: exército incontável de Anjos;

• Apocalipse: os Sete Anjos, Miguel, os Vigilantes, etc.


Fonte:
Adaptado do artigo do Pe. Françoá Costa, disponível emhttp://www.presbiteros.com.br/site/o-misterio-dos-anjos-quem-sao-eles/Acesso 25/11/014

[1] O artigo de P. B. CELESTINO, “Os anjos e o nosso anjo” se encontra em http://quadrante.com.br | sessão “artigos, doutrina e teologia”.

__________________
Referência bibligráfica:
• A. VACANT, “Ange”, in F. VIGOUROUX (ed.), Dictionaire biblique, I,1 A, Paris : Letouzei et Ané, 1895, pp. 576-590.
• A. V. de PRADA, O Fundador do Opus Dei (3 volumes), São Paulo: Quadrante, 2004.CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 325-336.
• F. F. CARVAJAL, Antología de textos para hacer oración y para la predicación, Madrid: Palabra, 1983, pp. 85-95.
• J. DANIÉLOU, O Mistério do Advento, RJ: Agir, 1958.P. B. CELESTINO, Os anjos, São Paulo: Quadrante.
• P. M. GALOPIN, “Ángel”, in P.-M. BOGAGERT e outros (responsáveis), Diccionario Enciclopédico de la Biblica, BARCELONA: HERDER, 1993, 73-76.

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A BÍBLIA CONFIRMA A SANTA IGREJA

A BÍBLIA COMO “ÚNICA REGRA” É HERESIA:
 
“Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular.”
(2 Pedro 1,20)
 
“Escrevo (a Bíblia) para que saibas como comportar-te na Igreja, que é a Casa do Deus Vivo, a coluna e o fundamento da Verdade.”
(1Timóteo 3,15)
 
“…Vós examinais as Escrituras, julgando ter nelas a vida eterna. Pois são elas que testemunham de Mim, e vós não quereis vir a Mim, para terdes a vida.”
(João 5,39-40)
 

“Porque já é manifesto que vós (a Igreja) sois a Carta de Cristo, ministrada por nós (Apóstolos), e escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração (…); o qual nos fez também capazes de ser ministros de um Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.”
(2Cor 3,3.6)

A IGREJA SEMPRE OBSERVOU A TRADIÇÃO APOSTÓLICA
 

“Em Nome de nosso Senhor Jesus Cristo, apartai-vos de todo irmão que não anda segundo a Tradição que de nós recebeu.”
(2 Tessalonicenses 3,6)

“Então, irmãos, estai firmes e guardai a Tradição que vos foi ensinada, seja por palavra (Tradição), seja por epístola nossa (Bíblia). ”
(2 Tessalonicenses 2, 15)
 
JESUS CRISTO INSTITUIU O PAPADO
 

“Tu és Pedra, e sobre essa Pedra edifico a minha Igreja (…). E eu te darei as Chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado nos Céus.”
(Mateus 16, 18)

“(Pedro,) apascenta o meu rebanho.”
(João 21,15-17)

“Irmãos, sabeis que há muito tempo Deus me escolheu dentre vós (Apóstolos), para que da minha boca os pagãos ouvissem a Palavra do Evangelho.”
– S. Pedro Apóstolo, primeiro Papa da Igreja de Cristo (Atos dos Apóstolos 15, 7)
 
“Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, confirma os teus irmãos.”
– Jesus Cristo a S. Pedro (Lucas 22, 31-32)
 
A IGREJA SEMPRE VENEROU MARIA COMO MÃE DE DEUS
 

“Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe do Senhor? (Mãe do Senhor = Mãe de Deus, pois Jesus é Deus)”
O Espírito Santo pela boca de Isabel à Virgem Maria (Lucas 1,43)

“De hoje em diante, todas as gerações me proclamarão Bem-aventurada!”
– Santíssima Virgem Maria, Mãe de Nosso Senhor
(Lucas 1, 48)

NÃO HÁ VÁRIAS IGREJAS E SIM UMA SÓ
 

“Há um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo”
(Efésios 4,5)

“Ainda que nós ou um anjo baixado do Céu vos anuncie um evangelho diferente do nosso (Apóstolos), que seja anátema.”
(Gálatas 1, 8)

NÃO HÁ SALVAÇÃO SEM A EUCARISTIA
 

“Em Verdade vos digo: se não comerdes da Carne e do Sangue do Filho do homem, não tereis a Vida em vós mesmos.”
(João 6, 56)

“Minha Carne é verdadeiramente comida, e o meu Sangue é verdadeiramente bebida.”
(João 6, 55)
 
“O Cálice que tomamos não é a Comunhão com o Sangue de Cristo? O Pão que partimos não é a Comunhão com o Corpo de Cristo?”
(1ª aos Coríntios 10, 16)
 
A IGREJA SEMPRE CREU NA INTECESSÃO DOS SANTOS, QUE ROGAM POR NÓS NO CÉU
 

“E a fumaça do incenso subiu com as orações dos santos, da mão do anjo, diante de Deus.”
(Apocalipse 8, 4)

“Aqui (no Céu) está a paciência dos santos; aqui estão os que guardam os Mandamentos de Deus e a Fé em Jesus.”
(Apocalipse 14, 12)
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