3. Diferença entre Ascética e Mística
O que estudamos até aqui aplica-se geralmente tanto à Ascética quanto à Mística. Para as distinguir, porém podemos assim defini-las:
> Teologia Ascética
Parte espiritual da Teologia que tem por objeto próprio a teoria e a prática da perfeição cristã desde os seus princípios até o limiar da contemplação infusa. Tal perfeição começa com o desejo sincero de progredir na vida espiritual, e a Ascética conduz a alma, através das vias purgativa e iluminativa, até à contemplação adquirida.
> Teologia Mística
Parte espiritual da Teologia que tem por objeto próprio a teoria e a prática da vida contemplativa, desde a primeira noite dos sentidos e da quietude até o matrimônio espiritual.
Estas perfeitas definições de Mons. Tanquerey (lê-se mais corretamente com a pronúncia ‘Tanquerrêi’) muito provavelmente incluem termos que não são conhecidos de alguns estudantes, motivo pelo qual os explicaremos antes de prosseguir. Não convém deixar passar os termos e conceitos que porventura nos sejam desconhecidos em nenhum ponto destes estudos, porque voltarão para nos atrapalhar depois. Vejamos, pois, pela ordem em que apareceram nas definições.
– Contemplação
Na simplificação de Mons. Tanquerey, é uma intuição ou visão simples e amorosa de Deus e/ou das coisas divinas. A contemplação cristã, do latim contemplatio (grego θεωρία, theoria), refere-se no Cristianismo a um conjunto de práticas cristãs como o o hesicasmo (‘quietude’), que buscam “olhar para” ou “obter consciência de” Deus ou da Realidade divina. A prática contemplativa ou mística é uma parte integrante e antiga da vida das igrejas cristãs.
– Contemplação infusa
Também chamada em Teologia Contemplação sobrenatural, esta se define por ser obra do próprio Deus no ser humano. A contemplação infusa se dá quando há a suspensão do intelecto diante de uma Verdade revelada. A pessoa, por ser incapaz de apreendê-la ou abarcá-la por seus próprios meios, faz-se como que extasiada; não podendo agir por si mesma, torna-se passiva, sendo movida por este ato de aceitação amorosa. Este mesmo movimento também provoca a vontade da pessoa pelo amor.
“A contemplação é o olhar mais livre e mais penetrante de uma mente, suspensa em admiração diante da manifestação da Sabedoria [divina]”, assim a descreveu perfeitamente Ricardo de São Vítor[1]. A contemplação infusa, pois, não é um ato ou realização do intelecto; é um acontecimento provocado por Deus ou pela divina Sabedoria muito mais profundo do que qualquer possível apreensão normal pelas faculdades humanas, e assim comove a vontade.
São Paulo Apóstolo disse que a Fé opera através da Caridade (Gl 5,6), e o gigante da Mística São João da Cruz que:
A contemplação é ciência de amor; é amorosa comunicação infusa de Deus e que vai ao mesmo tempo instruindo e enamorando a alma até elevá-la, de grau em grau, a Deus seu Criador. (Noite II, 18,5)
Dizendo do modo mais simples possível, a Contemplação infusa é uma comunicação de Deus à alma humana, motivada pelo amor a Deus, por Amor de Deus e
que produz amor na mesma alma, embora a sua operação envolva também o intelecto. Entre os seus efeitos, está o ardente desejo de se unir a Deus, mas também uma grande quietude, paz e contentamento no espírito. De momento, é o que basta saber a respeito, porque as questões ligadas à contemplação serão fundamentais no estudo da Ascética e da Mística, e a elas retornaremos recorrentemente. No tempo oportuno trataremos com mais detalhes não só da teoria como também e especialmente da sua prática.
– Contemplação adquirida
Dizendo de modo bem elementar, depois da explicação sobre a contemplação infusa, chama-se adquirida quando é fruto de nossa própria ação, como deve ser evidente, sempre auxiliada pela Graça, de modo diverso ao que ocorre na contemplação infusa a qual, como vimos, ultrapassa essa atividade, sendo operada por Deus com o nosso consentimento. Trata-se de um estágio inicial que deverá ser superado, mas que já traz grandes frutos e maravilhosas consolações ao cristão.
– Via Purgativa e Via Iluminativa
Estas matérias serão tratadas e examinadas cuidadosamente no correr desta formação, de modo que não a apresentaremos em detalhes ainda. Diremos apenas, como o básico do mais básico, que:
* A Via purgativa é uma etapa de purificação da alma, com o combate mais intenso ao pecado e aos vícios, da intensificação da conversão. Significa limpeza, penitência, envolve “noites escuras” e provações que são oportunidades para a ascese, pois a subida até Deus requer o desapego, além da descoberta mais profunda de quem somos nós e de Quem é Deus.
** A Via Iluminativa é aquela alcançada pela alma que já se despoja do “homem velho” e deve agora revestir-se do “homem novo” (Ef 4). Seu primeiro estágio consiste na iluminação concedida pelo Céu à alma para compreender o real valor e importância das coisas exteriores para o progresso espiritual. Caracteriza-se pela fascinação por Deus, pelo santo prazer nas descobertas místicas. Desenvolve-se o desejo de entrega e doação de si, o amor à Cruz, a sensibilidade fraterna, a sede pelo Espírito Santo e por seus dons e frutos. Há profunda paz e a serenidade interior, união com Maria e os santos, o estímulo para a oração e para serviço aos irmãos, especialmente aos pobres.
– A Primeira noite dos sentidos
Em sua obra clássica “A Noite Escura da Alma”, São João da Cruz descreve três tipos de “noite” que precedem a experiência mística da União com Deus. Em primeiro lugar vem esta “noite dos sentidos” onde todo prazer, satisfação ou deleite com as ilusões desse mundo são eclipsadas na alma que se eleva rumo ao topo da contemplação mística[2].
– O Matrimônio espiritual
Em sua obra O Castelo Interior, Santa Teresa de Jesus explica o mecanismo da alma considerando-a como um castelo rodeado de aposentos, assim como no Céu há muitas moradas (cf. Jo 14,2). No centro habita a Santíssima Trindade, a espera que a alma adentre sua última morada para ter com ela União, qual casamento espiritual ou união esponsal entre Deus e a alma que d’Ele necessita. É daí que a luz é irradiada, refletindo-se por todo o castelo. Quanto mais próxima do centro, mais a alma recebe esta Luz divina.
São João da Cruz – será inevitável citá-lo muitas vezes nestes nossos estudos –, com propriedade tomou o Cântico dos Cânticos bíblico para torná-lo um belíssimo poema, que diz: “Caminho em noite escura, mas, ó feliz ventura do amante em seu amado, no repouso descansado”. Pois, nesse “casamento” sagrado, o Esposo é Deus e a esposa, a alma humana.
O Matrimônio espiritual refere-se, pois, à União entre nossa alma e Deus. Esse é o casamento que Deus quer e que o Cristo preparou, porque, nossa alma andará inquieta até encontrar repouso em Deus, como disse Santo Agostinho em suas Confissões. Nossa alma anseia natural e ardentemente, mesmo que não o saiba, por viver em Deus, mas esse banquete nupcial, essa fusão de nossa alma com Deus, pode ser difícil, dado o estado deplorável da alma decaída.
Entre a Teologia Ascética e a Mística, há diferenças importantes as quais serão assinaladas mais tarde; mas há também entre as duas uma certa continuidade, sendo uma como que a preparação para a outra – pois Deus faz uso, quando o julga conveniente, das disposições generosas do asceta para o elevar aos estados místicos.
Em todo caso, o estudo da Mística projeta luz sobre a Ascética, e vice-versa; pois os caminhos de Deus são harmônicos. A ação poderosa que Ele exerce sobre as almas místicas faz perceber sua ação menos vigorosa sobre os principiantes; assim as provações passivas, descritas por São João da Cruz, fazem melhor compreender as securas que ordinariamente se experimentam nos estados inferiores, e do mesmo modo entendem-se melhor as vias místicas quando se vê a que docilidade, a que maleabilidade chega uma alma que, durante longos anos, se entregou aos árduos trabalhos da ascese. Estas duas partes de uma mesma ciência esclarecem-se, pois, naturalmente, e é conveniente que não sejam separadas.
Notas:
[1] Em sua obra “Benjamin Maior” ou “Arca Mística” (‘O Livro dos Doze Patriarcas’), citado aqui apud White, Keith J.; WRIGHT, Dana R. The Logic of the Spirit in Human Thought and Experience, Eugene: Pickwick Publ., 2018 p.126. Ricardo de São Vitor (*aprox.1110 – +1173) foi um monge escocês da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho cuja Teologia Mística exerceu grande influência entre os doutores e teólogos do seu tempo. Foi o prior da famosa Abadia de São Vitor, agostiniana, em Paris de 1162 até a sua morte.
[2] A segunda noite é a “noite do espírito”, na qual a alma perderá também a alegria das realidades espirituais, para que apenas a Fé pura e simples lhe sirva de guia rumo à União com Deus. A terceira noite é a “alvorada” quando a Luz divina principa a dar sentido a tudo. Depois dessas etapas é que virá a Iluminação divina, o mais perfeito estágio da alma antes de ganhar o Céu.